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Sobre o Sangue da Arena .  

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Por Claudiney Martins



A escrava untava o seu corpo com um aromático óleo. Endro. Este era o nome daquele franzino arbusto do litoral de Eredra que dava um fruto de gosto amargo, mas tinha a semente cheirosa, e segundo a tradição volin dava força extra para os guerreiros. Em um esporte - como os volins chamavam aquele absurdo derramamento de sangue - que tinha todos os cuidados em não permitir que magia fosse empregada em combates que não fossem mágicos, aquele óleo era uma surpresa. Não que Miro de Verrogar acreditasse realmente no poder creditado ao óleo untado, mas não podia negar que se sentia mais disposto após aquela massagem, e isto era importante para alguém que fosse lutar na arena da cidade de Itéria. Olhou para a bela escrava de cabelos negros, lisos e longos e que volta e meia lhe tocavam seu corpo. A massagem também lhe deixava disposto para outras coisas, mas seria um desperdício de energia naquele momento.

Censurou-se. Como podia pensar em algo assim quando estava condenado à morte? Não esperou que a escrava terminasse de massagear as costas e virou-se. Ela dirigiu-lhe um olhar inquiridor. Estava ali para servir ao guerreiro em qualquer de seus desejos. Ele ignorou a jovem e olhou para o teto de pedra da sala privada onde os mais famosos guerreiros de arena haviam passado antes da glória ou da morte. Para ele não havia dúvida, fora condenado à morte. Por três vezes enganara o enviado do Deus Cruine, mas hoje seria difícil. A escrava voltou a besuntar Miro, agora em seu tórax, em nenhum momento abrira a boca. Naquele quarto e naqueles momentos ele era amo e senhor e pela tradição ela não poderia dirigir a palavra ao guerreiro.

Lá fora outro combate chegava ao fim com os gritos de angústia e dor do derrotado. As cenas do seu primeiro combate lhe vieram a cabeça...

Foi a sua primeira passagem por uma arena volin. Ele foi colocado em uma cela em que dez condenados esperavam a vez de enfrentar a sua sentença. Miro foi quase o último a sair de lá. Quando quatro fortes volins vieram buscá-lo, suas pernas tremiam e uma tremenda vontade de urinar lhe ocorreu. Ele foi vestido com um arremedo de armadura de couro, e uma pequena espada de estocada foi posta em sua mão direita, a espada eredri. Um bracelete de ferro que cobria todo o seu antebraço esquerdo lhe servia de escudo. Desta maneira ele foi empurrado para a arena. Assustador foi ver quem era o adversário: um enorme orco denominado Truu Esmaga Cabeças. Miro viu-o justificando o seu epíteto, isto é, com os pés sobre a cabeça da sua última vítima. O verrogar havia conhecido a fama do orco na escola de guerreiros de arena. Antes do combate iniciar foi obrigado a ir até a tribuna de honra cumprimentar ao Portentã. Tinha esquecido o que dizer e ficou calado. Pensou àquela hora que o Mestre Tovi estaria furioso com ele.

As cornetas tocaram e o combate começou. O orco avançou imediatamente armando o golpe de seu mortal machado. Mas a luta não foi rápida como a criatura imaginava. Não acabou no seu primeiro golpe, nem no segundo. O orco deu inúmeros golpes no ar e Miro conseguiu esquivar-se de todos. Venceu o combate graças a sua agilidade, ao cansaço do adversário que havia combatido algumas vezes antes e a sua capacidade de encontrar um ponto vulnerável na armadura do adversário, que permitiu que ele estocasse a sua pequena espada algumas vezes, enfraquecendo e se tornando descuidado. A multidão que no início gritava: “Esmaga! Esmaga!”; depois do segundo golpe de Miro ficou em silêncio para depois saldar o novo vencedor com entusiasmo. Ele tinha vencido o combate, mas não teria perdão, sua pena de morte ainda seria executada.

...


Ermani entrou no aposento sem bater. Ele era o único que podia fazer isto sem correr o risco de ser morto imediatamente por Miro. O velho e corpulento Lunense era um antigo militar, que em fuga da Peste veio parar em Eredra - onde outro tipo de flagelo ocorria. Todavia a ocupação bárbara volin não foi maléfica para o exilado, muito pelo contrário. Ermani logo se tornou um combatente famoso nas arenas volins, fez fortuna e teve a inteligência de parar antes que a má sorte o atingisse. Montou uma escola de guerreiros de arena e voltou a ganhar muito dinheiro. Hoje vivia coberto de prata e ouro e seu passatempo preferido era comer.

- Como está? – perguntou com estranha suavidade. Aquilo era falso vindo de um homem que costumava trocar poucas palavras com seus alunos, exceto nos treinos onde os chingava o tempo todo.

Miro empurrou a escrava fazendo um sinal para que ela parasse com as massagens e deitou-se de lado. Ajeitou a toalha para cobrir o seu quadril.

- Tão bem quanto é possível para um homem que vai morrer.

O velho puxou uma cadeira do canto e acomodou o seu enorme corpo, Miro temeu que ela não aguentasse. Lembrou-se da primeira vez que viu aquele homem. Foi após ser condenado à morte por quebrar o nariz de um capitão volin, um Vei-Portentã como eles chamam. Naquele dia ele pensara em fugir da academia, a Companhia como era chamada. Dar um jeito de abrir a cela onde dormira foi questão de tempo, mas ele encontrou o velho antes de pular o muro, com um porrete na mão e dois guardas ao lado, sorrindo.

- Você demorou verrogari – disse ele. – O baixinho de Dantsem conseguiu sair da cela dois dias atrás.

- Ele conseguiu? – perguntou Miro enquanto tentava encontrar um meio de escapar.

- Está na cozinha – respondeu ele, caminhando em sua direção.

Por duas semanas Miro conheceu a cozinha, que nada mais era que uma cela escura onde ele passava o dia como ajudante do cozinheiro, descascando legumes, limpando animais e peixes e limpando pratos e panelas enquanto recuperava-se dos ferimentos daquela noite. Quando teve contato com o pessoal mais velho na Companhia soube que era besteira tentar fugir, pois era difícil evadir-se da academia e se porventura conseguisse, seria improvável que escapasse da caçada que se seguiria. Aí a morte era certa, mas de maneira lenta e muito dolorosa. Os volins faziam questão de capturar os fugitivos vivos.

- Tentei rever o seu combate – disse Ermani, trazendo os seus pensamentos de volta ao presente - mas você foi bater logo no sobrinho do Tu-Portentã de Itéria... Meu pedido foi negado e você terá que lutar mesmo com Tongolte Decepa Braços.

- Tu-Portentã? O que é isto? – apesar de estar ali há quase um ano, não conseguira aprender os títulos daquele povo considerado bárbaro.

- É um general que finge governar. Estes volins não gostam de burocracia, então eles sentam em suas cadeiras e perguntam para um eredri o que devem fazer. O importante para eles é que as moedas entrem em seus sacos.

Miro olhou para as pulseiras de ouro do lunense, sorriu com o pensamento que não eram só os bárbaros que gostavam de moedas, muitas moedas.

- Você pode rir – falou Ermani, um pouco irritado - mas lutar contra aquele volin louco é muito mais difícil que as duas vezes que enfrentasse a morte. Já vi homens bem mais fortes que você serem derrotados sem muito esforço pelo Decepa Braços.

- Duas vezes? – gritou Miro, sentando-se sobre mesa de massagem. – Você sempre esquece aquele urso cinzento.

Foi a vez de Ermani sorrir.

- Ele era velho e cego. Eu lhe avisei!

Aquela tinha sido a quarta e última luta até aquele momento e já fazia um bom tempo, pois fora antes da época da semeadura. Os torneios paravam nesta época e Miro ficou vários espetáculos depois disto sem lutar. Os volins tentavam encontrar uma maneira de matá-lo antes de terem que o perdoar, provavelmente por influência do tal Tu-Portentã. Pela lei volin, após cumprir o número de lutas a que fora condenado, o réu era perdoado e escravizado eternamente, o que eles davam o curioso nome de Escravos de Cruine. Ele seria vendido e teria que trabalhar o resto da vida em alguma fedorenta tinturaria ou limpando algum estábulo de hospedaria.

A segunda luta, não foi exatamente uma luta...

Viera a ordem de executar Miro no dia do espetáculo. Ermani, que acreditava ter encontrado um novo astro, ficou desesperado e tentou “rever” a escala de luta, mas não teve tempo de contatar seus bárbaros conhecidos e o verrogari teve seus pulsos amarrados a um poderoso baio que fungava impacientemente por correr. Os espectadores protestaram, pois Miro tinha se tornado conhecido como o Matador de Orco e ganhado a simpatia dos espectadores. O velho sussurrou no seu ouvido:

- Sua única chance é deslizar com os pés à frente e derrubar o cavalo na hora certa. Que Cruine não te queira.

Miro não sabia do que o seu instrutor estava querendo dizer, mas resolveu seguir a ordem. Quando o cavalo começou a correr, ele jogou-se no chão com os pés para frente. Só Blator sabe dizer o quanto isto foi difícil e Miro não gostaria de tentar de novo. As cordas se esticaram e os braços foram puxados com tanta força que ele achou que seriam arrancados. O corpo tendeu dar um giro, mas o ex-Leão Rubro manteve-se firme, mesmo tendo suas costas e nádegas dilaceradas pelo chão de terra. Ainda teve presença de espírito o suficiente para observar o rumo que o cavalo tomava. O bicho era ensinado e sem condutor seguia direto para a “cerca”, um amontoado de estacas de madeira pontiagudas que já estavam cobertas de sangue. Miro esperou o momento certo, quando o baio baixou a cabeça para saltar ele firmou os pés no chão e deu um puxão nas cordas. O cavalo perdeu o passo e caiu de barriga na “cerca”. O verrogari teve a sorte de esbarrar nas costas do cavalo empalado. No final teve apenas um ombro deslocado e uma panturrilha perfurada. Passou três semanas na cozinha e logo estava treinando novamente.

A arena ficou em silêncio e depois o público berrou o seu nome. Em condições normais ele seria perdoado e poderia viver o resto de sua vida como Escravo de Cruine longe daquela carnificina. Agora ele sabia que isto nunca aconteceria, pois queriam que ele morresse ali.

...


Sua terceira luta foi armada por Ermani. Um volin de um clã rival aos que ocupam Eredra foi condenado por espionagem e roubo. Não era um adversário à altura, ficou logo evidente. Pelo bem do espetáculo Miro fez com que a luta durasse um pouco mais, e aniquilou o adversário com um golpe preciso.

...


Com o urso não foi tão fácil quanto contra Truu Esmaga Cabeças.

- Ele é cego do olho esquerdo! – avisou Ermani quando ele entrava na arena. Já tinha lhe dito que era uma luta arranjada e que seria fácil.

No final tinha perdido a armadura, tinha arranhões profundos no tórax e no braço esquerdo e algumas costelas quebradas, mas estava vivo e vencedor. Ganhara um novo epíteto: Matador de Feras; a admiração do público e dos companheiros; e era também o campeão que Ermani não tinha um há muitos anos.

...


- Velho e cego do olho esquerdo – desdenhou Miro. – O animal era forte como um jovem urso e sabia que eu estava do seu lado esquerdo pelo cheiro. Quase morri.

Os dois sorriram, mas ficaram em silêncio que logo foi quebrado. Ermani sabia que tinham pouco tempo.

- Gosto de você, verrogari – disse ele para a surpresa de Miro, que não pôde deixar de desconfiar que ele gostasse realmente era da atenção que a Companhia de Ermani conseguia com o sucesso que ele estava tendo. – Se venceres, eles terão que lhe dar o perdão e poderás escolher se queres ser vendido para algum mercador ou se queres ser meu escravo, lutando os nossos gloriosos combates na arena em honra aos filhos de Blator.

Miro estava pronto a responder que preferiria trabalhar com a urina nas tinturarias que voltar a lutar, mas se conteve. Não iria irritar o velho. Lutaria com fervor, mas não acreditava que venceria o maior guerreiro das arenas de Eredra. Ermani adivinhava os seus pensamentos.

- Não responda agora. Depois da luta conversaremos.

O velho se levantou com o vigor de quem tinha vinte anos e trinta quilo a menos.

- Você acredita que eu possa vencer?

- Sim – disse sem vacilar enquanto encaminhava-se para a porta, – se não entrares derrotado na arena.

Duas belas escravas ajudaram-no a vestir a pesada armadura. Hoje lutaria com as cores e armas dos Leões Rubros, a guarda de elite do rei verrogari, honra a qual ele tinha recebido após uma batalha em Dantsem. Quase no final deste combate o rei apontara para ele e dissera alguma coisa para o general que estava ao seu lado. Dois Leões Rubros vieram ao seu encontro e levaram-no para o acampamento da guarda. Em poucas semanas estava usando a púrpura e o dourado e lutando em uma das melhores tropas de todo o Mundo Conhecido.

Enquanto caminhava pelos corredores, recebendo o cumprimento dos outros guerreiros de sua Companhia e o olhar respeitoso de todos aqueles que sabiam o que ele iria enfrentar, seus pensamentos voltaram para a viagem que o trouxe a Eredra e consequentemente àquela arena. Quando partiu de Treva, a capital de Verrogar, ele era um dos dezenove outros Leões Rubros que protegiam a irmã de Attos II. A princesa se internou na sede da Ordem do Deus Sevides e sua guarda foi enviada de volta a Verrogar. Na viagem pararam na capital de Eredra, Iteria, e Miro teve a má sorte de, bêbado, encontrar com um militar volin e se desentender com ele. Azar maior era este militar ser o filho de um importante líder do povo invasor.

Dobrou à esquerda e com poucos passos alcançou um grande portão de grossa madeira. Ali o barulho da multidão que ocupava todo o envoltório da arena era mais audível. Pela primeira vez ele faria a luta principal, e com certeza teria os espectadores contra ele. A plateia era em sua maioria formada de volins: homens, mulheres e crianças. Os eredris não gostavam dos espetáculos, mesmo assim havia um grande número deles ali. Muitos se obrigavam a vir assistir para agradar seus chefes e garantir seu emprego ou seu negócio. Para um volin, não gostar dos seus “jogos de guerra” era uma ofensa. Como Iteria era uma importante cidade mercantil, o número de estrangeiros era bastante elevado e eles vinham pelos mesmos motivos dos eredris ou mesmo por gostar da carnificina. Porém, uma coisa era comum a todos: eles preferiam os vencedores e iriam torcer por Tongolte.

O portão se abriu e Miro Matador de Feras entrou na poeirenta arena de chão batido. Manchas escuras pontilhavam toda a arena. Sangue e todo o tipo de imundice animal. Apesar de a arena ser limpa depois de cada combate, estes sinais de carnificina permaneciam.

Do portão que ficava exatamente do lado oposto da arena saiu o guerreiro volin conhecido por Decepa Braços. Seu tamanho era assustador mesmo para Miro, que tinha um porte acima da média. Seus olhos negros irradiavam algo. Além de forte o guerreiro parecia inteligente. Este guerreiro Miro não conseguiria derrotar como fez com o orco, ou seja, provocando sua ira.

Os dois caminharam até o centro da arena. Miro aproveitou para examinar a armadura do gigante. Uma cota de malhas cobria seu tórax e abdômen, mas não os braços que tinham apenas algumas faixas de couro e braceletes. Era um ponto fraco a ser explorado. As pernas eram cobertas até a altura do joelho por couro. Seria pouco provável que o corte de sua longa espada conseguisse furar ele. Uma estocada naquela região era uma manobra bastante difícil. Caneleiras de metal escuro, provavelmente ferro, protegiam a parte de baixo das pernas e os pés. O guerreiro não deveria ter muita mobilidade. Os dois trocaram olhares. Tongolte Decepa Braços não escondia o prazer sádico que sentia ao entrar naquela arena para matar.

Seguiram então lado a lado até a tribuna, onde Miro reconheceu entre outas autoridades o Vei-Portentã. Não conseguiu reter um sorriso ao ver o nariz achatado do rapaz.

- Que Crezir nos dê uma boa luta e uma boa morte – berrou Tongolte, o que foi repetido por um volin na tribuna, sentado em um cadeira que o destacava dos demais.

Miro tinha-o visto em outra oportunidade e o reconheceu como o Portentã Veinor devido ao seu dente negro.

- Que Palier proteja os seus filhos – berrou Miro. Sabia que algumas coisas não deviam ser ditas naquele momento. Porém, eles queriam matá-lo, então porque deixar as coisas serem tão doces para eles?

Veinor Dente Negro não repetiu a saudação e a arena ficou em completo silêncio. Tongolte virou-se e encarou-o surpreendido.

- Palier? – perguntou o líder dos bárbaros invasores, visivelmente irritado. – O deus dos elfos?

- E dos magos – respondeu Miro olhando para um sujeito em pé no canto da tribuna. Ele sabia que o homem era um dos magos responsáveis por detectar a magia entre os combatentes e impedi-la de ser usada.

- Você é mago?

- Não, senhor. Mas meu pai era.

O Portentã olhou-o com intensidade, como se desta forma pudesse arrancar a verdade do verrogari. Por fim sorriu mostrando o grande dente escuro.

- Então - berrou ele – que Palier proteja os seus filhos... Exceto elfos.

O público gostou e vibrou com aquilo. Os dois combatentes deram as costas à tribuna e se encaminharam para o centro da arena. Tongolte olhou com um ódio que Miro não entendeu. Estaria com inveja da atenção extra que ganhara do Portentã?

A luta começou com o sopro da corneta. O volin partiu para cima dele imediatamente. Usava uma grande e pesada espada que Miro não teve coragem de aparar por temer pela integridade da sua própria. O primeiro golpe passou pelo lado esquerdo dele que tentou contra-atacar imediatamente. Sua espada procurou o braço esquerdo de Tongolte mas, surpreendentemente o bárbaro interrompeu o golpe com sua espada. Os dois se entreolharam, Miro surpreso pela velocidade, Tongolte com um sorriso alegre.

- Pronto para morrer, verrogari? – perguntou o volin enquanto se estudavam.

Miro nunca tinha visto ninguém tão rápido, ainda mais com aquele tamanho. Logo foi posto em total defensiva, só escapando dos rápidos golpes devido a sua rapidez em esquivar-se. Percebeu que sua chance era cansar o adversário para só então tentar atingi-lo. Passou a lutar desta forma, tentando guardar suas energias e esperando que devido ao tamanho do adversário o cansaço o incomodasse primeiro. O combate foi se alongando. O barulho predominante era o de espadas cruzando o ar no vazio e delas contra o escudo. O público que primeiro gritava entusiasmado silenciara e, a não ser pelos berros isolados de incentivo ao volin, não se ouvia nada. Para desespero de Miro, Tongolte não apresentava sinais de fadiga e ele já sentia o peso de sua espada. Um golpe do Decepa Braços e seu escudo ficou imprestável. Desvencilhou-se dele e atacou com fúria, um ataque desesperado. Conseguiu apenas aranhar o braço direito do volin que contra-atacou imediatamente e acertou-o no tórax com a lâmina.

Miro perdeu o fôlego e deu alguns passos para trás. Tongolte sorriu, mas não partiu para o ataque, perdendo uma boa oportunidade de acabar com a luta. O verrogari odiou-o por isto, acreditando que o adversário queria prolongar a luta para o seu deleite ou para ter a oportunidade de cruelmente arrancar com golpes precisos os braços de Miro. Isto só seria possível quando ele estivesse exausto. Ele aproveitou a distância que havia ficado entre os dois para olhar para o local do impacto. Vários anéis de sua cota de malha haviam se rompido mas, ele não havia sido atingido pela lâmina da espada.

Os dois voltaram a se estudar. Em posição de guarda, caminhavam ao redor de um ponto imaginário que ficava entre os dois. Os calçados erguiam a poeira seca do chão. O público havia levantado, sentindo que a luta chegava a um momento crucial. O murmúrio comum ao espetáculo voltava a se fazer ouvir.

Miro estava angustiado, pois não via saída para a sua situação. Morreria naquele chão duro de uma terra estranha para o deleite daquele público tacanho. Quanta repugnância ele sentiu daquilo tudo naquele momento!

Respirou fundo. Não tinha o que fazer a não ser lutar até o fim. Sabia do objetivo do seu adversário, isto era uma vantagem, pois ele não o mataria se ele abrisse toda a guarda e atacasse. Pelo menos na primeira vez, até que Miro o tivesse atingido e ele passasse a ter mais cuidados defensivos. Assim mesmo seria difícil, teria que ser um golpe preciso no braço que empunhava a espada, e o gigante volin cuidava muito bem daquela parte do corpo.

Antes de partir para o ataque do desespero, Miro notou que o bárbaro fez um gesto com a mão esquerda. Não era a primeira vez. A mão tinha sido levada até o peito, onde uma pedra do tamanho de um limão, mas na forma de uma gota estava presa a armadura de Tongolte. Naquele instante, talvez pelo desespero, talvez por ele ser filho de mago e ter um resquício do dom do pai, ele teve certeza que o objeto era mágico. No mesmo momento ele decidiu que aquele era o seu alvo. Ali estava guardada a esperança de salvação.

O verrogari avançou. Tongolte já esperava o ataque do desespero, algo que ele já havia presenciado inúmeras vezes. Da mesma forma, inúmeras vezes os bons guerreiros que ele havia enfrentado tinham tentado atingi-lo no braço que empunhava a espada. Nada de novo e tudo sobre controle. Ele esticou o braço para trás, esquivando-se. Se tentasse aparar seria atingido. A espada do verrogari passaria perto, mas erraria o alvo. Todavia, para a sua surpresa o ataque ao seu braço tinha sido uma finta. A espada foi desviada para o seu tronco protegido pela armadura e com a ponta atingiu o cristal. O cristal era sua fortaleza e sua fraqueza. De repente todo o seu sucesso e toda a sua fortuna eram soprados pelo vento que vinha do rio Sevides.

Miro quase não acreditou quando acertou o cristal, viu que ele se desmanchou em inúmeros pedaços e um gás verde saiu dele. Só podia ser magia! Uma suposição nascida do desespero se revelava verdade! Coincidência? Como ele poderia estar usando magia se existia um grupo de magos que impediam seu uso dentro da arena?

Ele não pode continuar com os seus pensamentos. Tongolte atacou com força total, mas, confirmando os pensamentos do verrogari, seu ataque não foi tão rápido e Miro conseguiu aparar o golpe sem dificuldades. Os dois trocaram golpes por alguns minutos e o grande volin, para a surpresa dos espectadores foi perdendo o fôlego rapidamente. Muitos não devem ter visto a quebra do cristal, mas a notícia espalhou-se com rapidez e logo a assistência estava torcendo pelo Leão-Rubro.

Derrotar o campeão foi questão de tática e paciência. Ferido, desarmado e exausto, Tongolte chegou ao fim dos seus dias de glória prostrado de joelhos e com as mãos apoiadas no chão. Miro podia terminar a luta ali. Ele tinha o direito de matar o adversário derrotado e era isto que os espectadores pediam, mas aproximou-se da tribuna de honra deixando para trás o volin. O público calou-se.

- Derrotei meu adversário de minha quinta luta – gritou ele para que todos ouvissem. – Pela lei volin reclamo o direito à vida.

O grande líder volin, Portentã Veinor Dente Negro levantou-se de sua cadeira. Falou algo para um dos guerreiros que faziam o papel de guarda pessoal e aproximou-se da beirada da tribuna.

- Sua vida agora é protegida pela lei volin. Se o Deus Cruine não o quer ao seu lado, que você o sirva nesta terra. Além de escravo de seu proprietário que você seja Escravo de Cruine.

Veinor terminou estas palavras rituais e virou-se, saindo da tribuna. Estava visivelmente irritado com tudo o que havia acontecido. Quando Miro, por sua vez, virou-se, um grupo de guerreiros volins entrou na arena. Eles traziam consigo quatro homens, um deles era o mago que estava na tribuna. Todos tiveram a cabeça cortada imediatamente, apesar dos protestos deles e para delírio do público. De nada serviu o verrogari ter poupado a vida de Tongolte, pois ele teve a mesma sorte, mas só depois que os guerreiros deceparam seus braços.

Cansado e infeliz – Miro não conseguia sentir-se alegre em meio a tanta morte – ele se encaminhou para seu quarto. A esta hora a escrava estaria preparando um banho quente e um massagem. Um curandeiro iria aplicar algum unguento nos ferimentos e talvez um mago diria algumas palavras para ajudar a sarar mais rápido. Ele agradeceria a Palier e oraria para Cruine também, afinal agora ele era um dos seus escravos, se bem que seu proprietário era na verdade Ermani.

- Congratulações, guerreiro! – disse Ermani vindo ao seu encontro. – Como estás?

- Bem – respondeu, não sentindo muita vontade de conversar. – Nenhum ferimento grave.

- Sei que pensas em abandonar a arena – Ermani foi direto ao ponto. Miro sabia o discurso que vinha e não tinha vontade de ouvi-lo, mas não teve forças para interromper o mestre.

- Peço que penses na possibilidade de continuar. A glória e a fortuna te esperam. Apesar de ser um escravo sem possibilidade de alforria, terás uma vida que poucos governantes poderão ter.

Miro não respondeu, estava esgotado demais. Continuou andando para a sua sala deixando Ermani para trás. Ficou surpreso ao verificar que o velho não continuava o discurso.

- Pensa que acabou, verrogari? – a pergunta saia de uma voz familiar a suas costas, mas que ele não conseguiu identificar. Uma voz que não o agradava. Ele se virou com a espada erguida.

Ao lado de um assustado Ermani estava o Tu-Portentã, seu filho, e dois guerreiros volins.

- Como governante volin – começou o governante de Itéria - tenho que respeitar nossas leis que lhe preservam o direito à vida dado por nosso Portentã. Porém, como guerreiro volin, pai volin e líder de clã não posso permitir que a afronta feita ao meu filho, que o marcara por toda a vida, fique sem vingança. Você é um homem morto, verrogari. Assim que o seu nome desaparecer da cabeça das pessoas e do grande Veinor, um mensageiro de Cruine virá na ponta de uma adaga, no meio de uma noite fria.

Os volin viraram as costas sem esperar por uma réplica. Miro não tinha nenhuma para dar a eles de qualquer forma. Apenas virou-se e continuou para a sua sala em silêncio. Ermani segui-o sem falar nada também. Os dois entraram na sala que estava cheia de vapor perfumado com essências de banho que vinham de um tacho de madeira de um dos cantos do aposento. Ermani fechou a porta atrás de si, enquanto duas escravas vieram ajudar Miro com a armadura.

O guerreiro esperou que elas tirassem toda a sua armadura e roupas de baixo, e limpassem o seu ferimento. Então dirigiu-se para o tacho, dando as costas para o velho.

Enquanto entrava na água quente falou-lhe:

- Acho que a Companhia de Ermani tem um novo campeão.

Ermani deu um meio sorriso. Não estava surpreendido.





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